quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

LIVRO - Mohandas K. Gandhi - Autobiografia Minha Vida e Minhas Experiências Com a Verdade



Dentre os livros que me programei para ler em 2017, a autobiografia de Gandhi era um dos livros de janeiro.
Acho que não existe ninguém que nunca tenha ouvido falar em Gandhi. Ele é bem conhecido por ser um pacifista indiano e líder espiritual. Ele foi uma das principais figurar no processo de independência da Índia e obteve grandes resultado na pacificação entre muçulmanos e hindus.
Todos nós sabemos a maioria dos grandes feitos dele. Além de ter lido a autobiografia eu estou lendo uma biografia dele e um livro sobre uma palestra dada por um dos intérpretes mais destacados de Gandhi. Então nesse post eu resolvi trazer as coisas que para mim foram mais curiosas, nos outros posts trago mais sobre seus feitos.

Gandhi intitulou sua autobiografia como “Minha Vida e Minhas Experiências Com a Verdade”, e é assim que ele classificava sua vida: como uma eterna busca da verdade.
Para Gandhi cada passo e cada ação da vida deveriam ser dedicadas a busca da verdade. A verdade era a religião dele. Ele fazia o possível para nunca mentir e quando, por algum motivo acabava mentindo, aquilo o consumia e ele fazia o possível para confessar e reparar qualquer dano que tivesse causado.
Gandhi se casou muito cedo, com apenas 13 anos. Sua esposa era igualmente nova, mas diferente dele era não era instruída. Quando um pouco mais velho Gandhi foi para Londres estudar Direito, e deixou sua esposa na Índia. Quando se formou, diferente do que sua família queria, que ele fosse um advogado de sucesso e rico, ele resolveu viver sua vida da forma mais simples possível. Para ele, a Verdade se encontrava servindo, vivendo de maneira simples e se privando dos luxos da vida.


Gandhi e Kasturba

Gandhi e Kasturba

No decorrer do livro, podemos ver, que não importa em que país ele estivesse ou que trabalho estivesse fazendo, ele sempre procurava uma forma de economizar nas duas despesas mensais. Seja deixando de comer em restaurantes e passando a comer em casa ou morando em lugares mais simples e menores. Gandhi inclusive devolvia qualquer presente caro que ele e sua esposa recebiam.
Gandhi criou algo como fazendas/comunidades, onde as pessoas moravam, trabalhavam e se sustentavam por meio das terras, e onde também eles mantinham um jornal. As crianças dessa comunidade eram instruídas lá mesmo. Para Gandhi, o conhecimento espiritual era mais importante do que qualquer outro, sendo assim, ele mesmo dava aulas para as crianças. Dessa forma as crianças acabavam tendo conhecimentos mais limitados em literaturas e similares.
Um dos arrependimentos de Gandhi era o ardente desejo sexual que tinha por sua esposa. Ele achava que não fosse isso, ele poderia ter sido um ótimo professor para ela. Quando mais velho ele colocou isso como uma das provas de que o voto de celibato era a melhor forma de se encontrar a verdade.

“O casal que disso se der conta jamais empreenderá a união sexual com o objetivo de satisfazer sua luxúria, mas apenas para gerar descendência. Considero ser o auge da ignorância a crença de que o ato sexual é uma função necessária, tal como dormir ou comer. Para existir, o mundo depende do ato da geração. Assim como o mundo reflete a glória divina, os atos geradores devem ser racionais, para que possam favorecer o crescimento ordenado no mundo. Quem se apercebe disso controlará a sua luxúria a qualquer preço, e adquirirá o conhecimento necessário para promover o bem-estar físico, mental e espiritual de sua progênie, beneficiando assim a posteridade”.
Pag. 186

Ele diz que esse desejo sexual fazia com que ele não visse Kasturba como uma companheira. Em um momento do livro em que ele conta que foi mais agressivo com ela, ele diz que a culpa era desse desejo que ele sentia. Por esses e outros acontecimentos, ele resolveu fazer um voto de celibato. Para cumprir de melhor maneira esse voto, ele inclusive mudou sua alimentação.
As suas crenças e cultura o privavam de comer carne, mesmo assim quando jovem, Gandhi acabou comendo carne escondido de sua família. As pessoas falavam para ele que a Índia era dominada pelos ingleses porque eles comiam carne, que isso fazia deles mais fortes e inteligentes. Mas essa experiência dele não durou muito tempo. No final ele reconheceu que aquilo não combinava com a sua busca pela verdade. Se ele tinha que comer escondido estava errado. Além de não comer carne Gandhi fez um voto a sua família de que iria se abster de qualquer tipo de leite. Voto que ele teve que contornar eventualmente por causa de sua saúde.
Ainda falando da alimentação. Gandhi achava que a busca da verdade vinha por meio da privação. Sendo assim, o objetivo de comer era somente a nutrição e não o prazer. De legumes temperados ele passou para legumes crus e sem tempero, até decidir por uma dieta feita de frutas e de nozes. Essa dieta, de acordo com ele, era a melhor para controlar os desejos sexuais.

“As pessoas não deveriam comer para agradar ao paladar, mas apenas para manter o corpo. Quando cada órgão dos sentidos presta serviço ao corpo e por meio dele à alma, seu prazer especial desaparece, e só então ele começa a funcionar de forma natural”.
Pag. 280

“Seis anos de experiência mostraram-me que os alimentos ideais para o brahmachari são as frutas frescas e as oleaginosas. Durante o período que comi apenas isso, desfrutei de uma imunidade às paixões que, depois de mudar de dieta nunca mais senti. Não precisei me esforçar para manter o meu voto de brahmacharya durante a época em que, na África do Sul, me alimentei apenas de frutas frescas e oleaginosas. Um grande esforço tornou-se necessário, depois que passei a tomar leite”.
Pag. 190

Algo como uma penitência que colocava para si mesmo, era o jejum. Quando uma greve de trabalhadores que ele estava apoiando começou a fraquejar, ele prometeu jejuar até que os trabalhadores conseguissem o que queriam. Quando um aluno era rebelde, ele jejuava. Quando ficava doente, jejuar também era algo como uma cura. Para ele jejuar era melhor do que qualquer remédio, que ele sempre se negava a tomar.
Gandhi lutou pelo seu povo na África do Sul, em Londres de dentro da própria Índia. Usou seus conhecimentos da lei para defende-los sempre que podia. Sendo inclusive preso algumas vezes, mas ele quase não fala disso. Só fala que estaria pronto se fosse necessário.

Gandhi fala muito de suas lutas no livro, mas como disse eu quis trazer as coisas mais curiosas, sejam boas ou ruins.
Uma passagem no livro que me deixou pensativa quanto ao livro todo, foi quando ele descreveu quando morava com muitas pessoas juntas em uma mesma casa sem distinção nenhuma de classe ou crença. Naquela época existiam os urinóis, e Gandhi e sua mulher eram responsáveis por limpar os da casa. Um dos moradores, era um intocável e Kasturba não suportava que Gandhi limpasse o urinol dele, mas nem gostava ela mesmo de fazer isso. Ao que ele conta:

“Até hoje me lembro da imagem dela me repreendendo, com os olhos vermelhos de raiva, e lágrimas rolando pela face, descendo a escada com o urinol na mão. Mas eu era um marido cruelmente gentil. Considerava-me um professor e a incomodava, devido ao meu amor cego por ela.
Estava longe de me satisfazer com o mero fato de ela carregar o urinol. Queria que ela o fizesse com alegria. Então disse, elevando a voz:
- Não vou suportar esse absurdo em minha casa.
As palavras atravessaram-na como uma flecha e ela gritou de volta:
- Fique com a casa e me deixe ir.
Esqueci de mim, e minha fonte de compaixão me secou. Tomei-a pela mão, arrastei a indefesa mulher até o portão, que era logo em frente a escada, e comecei a abri-lo com a intenção de empurrá-la para fora. As lágrimas desciam em torrentes pela sua face, e ela gritou:
- Não tem senso de pudor? Precisa esquecer de si mesmo até esse ponto? Não tenho pais ou parentes aqui para me abrigar. Sendo sua mulher, pensa que devo suportar os seus tapas e pontapés? Pelo amor de Deus, comporte-se e feche o portão. Não queremos ser vistos fazendo cenas como esta! ”
Pag. 245

Ele se considerava um marido “cruelmente gentil” por fazer coisas como essa. Se considerava gentil por arrastar a esposa pelo braço para fora de casa. Se isso para ele era ser gentil, como acreditar nas partes em que ele diz que estava fazendo o que era justo? O que para ele significa ser justo?
Em geral achei a história dele muito interessante. Mas fico pensando: será que tudo isso era realmente necessário? Conheço indianos que são contra tudo o que ele fez. Na sua autobiografia ele não conta, mas ele fez com que muitas vidas fossem perdidas na guerra.
Infelizmente guerra é uma coisa que existe (com ou sem Gandhi), mas para alguém que pregava a não violência, é no mínimo irônico que ele tenha encorajado pessoas a ir para a guerra. Talvez, depois de ler os outros dois livros eu mude de opinião sobre ele. Veremos.
Mas minhas opiniões pessoais a parte, o livro é em interessante. É interessante ver as coisas contadas pelos olhos de quem a viveu, apesar de poderem ser facilmente manipuladas. Concordando, ou não com as ideias de Gandhi, é muito interessante saber mais sobre a vida de alguém como ele.
O livro tem capítulos curtos e é de fácil leitura. Me irritou um pouco o fato dos significados dos termos em indiano estarem no fim do livro e não no rodapé, mas tudo bem.
 A minha edição não existe para venda, ela é distribuída pelo consulado da Índia (Ganhei de um colega que trabalhava no consulado). Mas encontrei idêntica para venda, para quem se interessar é fácil de encontrar.

Logo mais trago os outros dois livros sobre ele que prometi.
💜

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