quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

LIVRO - Linha de Sombra - Lúcia Bettencourt



     Instada a carregar o ovo de um lado a outro da cozinha, a fim de entregá-lo à empregada que espera com o óleo já esquentando na panela, a menina se espanta ao pousar o objeto sobre a palma da mão. Os dedos receosos, ainda à procura da firmeza, entregam o assombro com a perfeição do formato sinuoso, "tão puro, sem emendas, de linhas tão simples".
     Quando a cozinheira recebe e enfim quebra o ovo, lançando a clara e a gema na frigideira, o susto é outro: na fragilidade da casca, a garota enxerga o tênue envólucro da existência. Do ovo, dela e de todos nós. E adivinha, naquela angústia, o drama da finitude.


     Linha de Sombra é um livro de contos, de uma escritora brasileira. O livro é composto por 16 contos separados em duas partes: sol e sombra, cada parte com 8 contos.
     A citação acima é do conto O Ovo, da primeira parte, Sol. Essa citação também está na orelha do livro e me chamou muita atenção.
     Quando paramos para pensar a forma como a criança vê a casca do ovo, assim é a vida. Perfeita, simples, sem muita explicação, mas ainda assim extremamente frágil, que assim como a casca do ovo pode ser facilmente destruída.
     Mas não pense que todos os contos nos fazem pensar dessa forma. Apenas esse conto faz isso. O primeiro conto, A Predadora, é mais erótico e posso dizer que até me agradou também. O conto chamado Ceia de Natal, sobre um pai desempregado que queria dar uma ceia de natal descente para a família também foi interessante. Um ou outro conto também me chamou um pouco de atenção em alguns momentos. Mas foi só isso.
     Acho que escrever contos pode ser mais difícil que escrever um livro. Quando você escreve um livro e mais ideias vão surgindo você não tem limites com o tamanho de livro que quer escrever. Em contos você tem que manter isso mais curto. Claro que não existe uma regra de quantas páginas um conto deve ter no máximo ou no mínimo, mas isso tem que se encaixar com o que você quer contar. 
     Nos contos desse livro parece que a autora queria deixar todos com poucas páginas e simplesmente largava a história no meio. Pareciam que os contos tinham início, meio e nenhum fim. Os contos desse livro não são como aqueles contos que deixam um suspense no final, eles simplesmente parecem que foram abandonados. Parece que a autora largou eles ali para terminar um dia, depois desistiu e publicou assim mesmo.
     Não lembro o que me fez comprar esse livro, nunca tinha ouvido falar dele antes e também não conhecia a autora, mas comprei mesmo assim. Demorei meses pra sequer folear o livro, resolvi lê-lo para a Maratona do Desespero por ser um livro de um escritora nacional. A leitura foi bem rápida, li o livro em duas horas se não me engano. Mas infelizmente não me surpreendeu em nada. Em um livro com 16 contos, se 4 me agradaram de verdade já é muito.
    É triste isso. Fico triste de pensar que não gostei de um livro e que virei aqui falar meio que mal desse livro. Mas infelizmente não teve jeito. É ruim quando você não consegue gostar de algo que provavelmente a outra pessoa fez com dedicação. Mas não teve jeito mesmo.
     As histórias parecem que estão inacabadas. Além de parecerem simplesmente largadas, algumas são totalmente desnecessárias. Vêm de lugar nenhum e vão para lugar nenhum. É triste, mas infelizmente é um livro que não me agradou.
     A autora tem mais um livro de conto e dois romances além de livros para crianças. Curiosamente o primeiro livro dela, A Secretária de Borges, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras. Então ele deve ser bom. Mas como encarar outro livro da autora quando esse foi tão desapontante? E olha que eu não tinha expectativa nenhuma! 
     Um dia, o certo, seria eu ao menos conhecer as outras obras dela, mas isso vai ficar pra um futuro talvez bem distante, porque nesse momento não me atrai nenhum pouco.
     Então é isso. Infelizmente é isso. Um livro de contos curtinhos, fácil de ler, mas sem início e nem fim e sem nenhum atrativo.
     Mas livros assim acontecem. O próximo será diferente, melhor!
     Nos vemos em breve!

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